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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Os cães vão para o céu? (Milton L. Torres)


Uma vez alguém indagou a Elizabeth Marshall Thomas se haveria cães no céu. Ela respondeu afirmando que obviamente o céu teria cachorros, de outra forma não seria céu (DONIGER, 2007). Da mesma forma, o veterinário americano Robert T. Sharp escreveu, em 2005, um livro (ao qual não tive acesso) fazendo justamente essa pergunta: haverá cães no céu? Na universidade americana Seattle Pacific University, Kathleen Braden, uma professora de geografia, ensina um curso denominado “Haverá cães no céu?”, no qual ela explora as relações entre o homem e os animais, incluindo o estudo de tratados teológicos sobre a natureza dos animais, o relacionamento dos seres humanos com o sofrimento animal e os aspectos psicológicos de nosso relacionamento com nossos animais de estimação. Se isso lhe soa estranho, talvez seja nossa sisudez que nos impeça de apreciar a possibilidade de seres humanos e animais conviverem pacificamente em um ambiente celestial. De acordo com Bill Hall (1990), as pessoas raciocinam que, se houver cães no céu, também haverá ali gatos, camundongos e outros animais de estimação que poderão ser inconvenientes à fruição de gozo eterno. Talvez imaginem que será uma tentação dietética contemplar uma ave ou peixe, no céu, sem poder apreciá-los de uma forma mais epicurista do que o ambiente celestial permitirá. De qualquer forma, minha família ficou profundamente impressionada, recentemente, quando ouviu um pregador anunciar, enfaticamente, que os cães não vão para o céu. Como muitas outras famílias cristãs, temos uma cadela (pinscher) em casa. Seu nome é Melanquita (“vestido preto”, em grego), e meus filhos adolescentes muito se afeiçoaram a ela. Ouvir, repentinamente, que os cães não vão para o céu causou-lhes grande decepção. Contudo, ao examinar o texto bíblico apresentado pelo pregador, confesso que não tive a mesma impressão que ele e estou convencido de que o mesmo não exclui os cachorros do céu. Trata-se de Ap 22:14-15: “Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira.”
Não me sinto embaraçado ao me referir ao cachorro da família de forma afetuosa. Bainton (1957) comenta que Lutero, em várias passagens de sua obra Conversa à mesa (ou Colloquia mensalia, em latim), menciona seu cachorro Toelpel, ao qual ele parece ter estimado muito. Percebe-se pela fala de Lutero que ele esperava que os cães fossem para o céu. Ele chega mesmo a dizer que, no céu, os cães teriam pele de ouro e pêlo de prata. Além disso, ele os apresenta como modelos para a fidelidade e concentração cristãs: “Ah, se eu pudesse orar com a devoção com a qual meu cachorro observa um pedaço de carne” (Conversa à mesa, n. 274). Além disso, a ressurreição dos animais é uma doutrina solidamente estabelecida entre os mórmons. Segundo o autor mórmon Bruce R. McConkie (1962, p. 573-578), “nada é mais absolutamente universal do que a ressurreição; todo ser vivo há de participar dela: ‘como todos morreram em Adão, assim em Cristo todos serão vivificados’ (1 Co 15:22.)”.

São literais os cães de Ap 22:14-15?
O texto de Apocalipse definitivamente não se refere a cães literais. O contexto favorece a uma interpretação metafórica da passagem por duas razões principais. Em primeiro lugar, todos os outros elementos da lista apocalíptica dos excluídos da Nova Terra são figuras humanas culpadas de pecados graves: feiticeiros, prostituídos, homicidas, idólatras e mentirosos. Incluir um animal entre esses não faz sentido, pois os animais não são passíveis de cometer pecado. Em segundo lugar, o livro de Apocalipse apresenta, em 21:8, uma outra lista de impossibilitados à salvação que tampouco inclui animais: “quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicadores, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte”.
Além disso, existem outros usos metafóricos dessa palavra nas Escrituras. Dt 23:18 fala do salário de uma prostituta e de um cão num contexto tão claramente simbólico que as traduções portuguesas nem mesmo retêm a palavra “cão”: “não trarás o salário da prostituta nem preço de um sodomita [ou cão] à casa do Senhor teu Deus por qualquer voto; porque ambos são igualmente abominação ao Senhor teu Deus.” O termo era, também, um insulto genérico (1 Sm 17:43; 24:14; 2 Re 8:13; Sl 22:17, 21; Isa 56:10-11; Mt 7:6), como ainda o é em nossos dias, ou uma expressão de humildade (2 Re 8:13). É, portanto, um contra-senso insistir que os cães encontram-se escatologicamente barrados de existir na Nova Terra.

Os cães de Apocalipse são os gentios?
As listas de vícios, pecados e tipos de pecadores eram comuns entre os filósofos moralizantes do mundo greco-romano. Luciano, em seu tratado intitulado Hermótimo 22, compara a virtude (aretē) a uma cidade da qual são excluídos todos os vícios. Nas Escrituras, Paulo é quem as utiliza com maior freqüência. O caso do livro de Apocalipse, que se baseia na tradição de Dt 18:9-14, é a única ocorrência conhecida de uma lista de vícios contendo a palavra “cães”. Por isso, tem sido prática comum interpretar o termo como uma referência a pessoas e não a animais. De fato, de acordo com Dídimo de Alexandria, os cristãos do século IV negavam a participação na comunhão aos não batizados com base no provérbio de Mt 7:6, que proibia que coisas sagradas fossem dadas aos “cães”. Será, contudo, que uma comparação entre o texto de Apocalipse e o evangelho de Mateus nos permitiria concluir que “cães”, figurativamente, são sempre os gentios?
Apesar de o evangelho de Mateus ter sido escrito primariamente para os judeus, há, nele, um número surpreendentemente alto de referências aos gentios. Como em alguns casos, Mateus os apresenta sob uma luz desfavorável, certos teólogos, como David Sims (1998, p. 215-256), por exemplo, têm suposto que o evangelho tem um tom anti-gentílico. Outros teólogos, como Hummel (1996, p. 36) e Bonnard (1982, p. 429-435), entendem que, quando os líderes judaicos, em Mateus, empregam a palavra “pecadores”, eles geralmente se referem aos gentios. Assim, a frase “publicanos e pecadores” deve ser compreendida como equivalente sintagmático de “publicanos e gentios”. No entanto, é possível perceber inúmeras ocasiões em que Mateus apresenta os gentios com um olhar favorável: 8:5-13; 21:17-24; 27:54; etc. Para Smillie (2002, p. 74-96), Jesus aceita e adapta os estereótipos judaicos convencionais em relação aos pagãos como a quintessência da injustiça discursiva, procurando generalizar a fim de criar um contraste em relação ao qual Ele possa criar um novo comportamento ou atitude. Por essa razão, não me parece coerente supor que a referência de Jesus aos cães, na perícope da mulher cananéia (Mt 15:22-28), tenha como intenção outra coisa que não generalizar para contrastar e levar a uma mudança de atitude. Os leitores de Mateus, observando o relato através da máscara exclusivista do Judaísmo, devem perceber pela resposta da mulher e pela concessão de Jesus a sua súplica que necessitam adotar uma nova atitude em relação aos samaritanos e aos gentios em geral: uma atitude de tolerância. A mulher toma, sem pudores, o termo deliberadamente pejorativo de Jesus e o aplica a si mesma, ao dizer: “mas mesmo os cães”. Isso lhe ganha a bênção e, mais do que isso, um dos mais comoventes elogios feitos por Jesus nos evangelhos.
Fica claro, portanto, que, apesar de pejorativo, o uso do termo “cães” por Jesus em Mateus tem como objetivo provocar uma mudança de atitude em relação a uma classe discriminada. A situação criada por Jesus é o equivalente prático de sua declaração “ouviste o que foi dito... eu, porém vos digo”, usada por Ele com a mesma finalidade de transformar a compreensão de seus ouvintes em relação a conceitos que deveriam ser suplantados pelo amor cristão. Entretanto, o interesse principal deste artigo não é estabelecer todo o contexto em que a palavra “cães” se emprega em Mateus, mas simplesmente assinalar que os escritores neotestamentários estavam familiarizados com seu uso metafórico. Ou seja, em Mateus a palavra “cães” não se refere ao animal, mas aos gentios. Por outro lado, não podemos dizer que a ocorrência da palavra em Apocalipse tenha o mesmo referencial uma vez que percebemos que, em Mateus, a palavra foi enobrecida por Jesus. Depois do encontro da mulher cananéia com Jesus, os “cães” (= gentios) não são mais excluídos do banquete, mas passam a ter direito às migalhas. Por isso, os cães de Apocalipse não podem ser os gentios porque, ali, os cães continuam excluídos da salvação.

Quem são os cães de Apocalipse?
Ao analisar a passagem de Apocalipse, Robertson propõe, com base em Dt 23:18, que os “cães” são pessoas sexualmente impuras, uma vez que, segundo ele, os cães eram animais de rapina no Oriente e, por isso, eram ali desprezados. A mensagem do Apocalipse não representa, contudo, unicamente o pensamento oriental. João, é verdade, era judeu, mas escreveu em grego, na ilha de Patmos, uma prisão romana no coração do mundo grego. Por isso, pode-se buscar para a palavra “cães” um sentido mais próximo àquele empregado no mundo greco-romano. Se isso é verdade, o termo pode ter um sentido filosófico mais abrangente do que apenas o da imoralidade.
O mundo grego conheceu certos filósofos que se chamavam a si mesmos de cínicos, isto é, “caninos”, para enfatizar seu comportamento irrestritamente franco. Um dos mais famosos desses filósofos foi Diógenes de Sínope que, segundo Diógenes Laércio 6.54, era “um Sócrates enlouquecido”. Diógenes pregava a anaidéia, isto é, uma vida totalmente despojada de pudor. Outro renomado filósofo cínico foi Crates de Tebas (TORRES, 2001, p. 45-54). Sabemos, por intermédio de Apuleio (Floridum 14), que Diógenes de Sínope persuadiu Crates, no século IV a.C., a renunciar a sua fortuna. Crates passou, então, a se referir a sua antiga riqueza pela expressão “fardo de esterco” (onus stercoris). A decisão de Crates foi tão ofensiva a alguns que Clemente de Alexandria, em sua obra Quem é o homem rico que se salva?, declara que Crates o fez apenas porque queria se libertar do trabalho de ter que manter suas posses, preferindo o ócio das letras inúteis (hē scholē nekras sophias) e, portanto, não pelas razões sugeridas por Jesus em Mr 10:17-31. O mesmo Apuleio (Floridum 22) apresenta um Crates desnudo, ensinando suas doutrinas e carregando uma clava semelhante à de Hércules (seminudus et clava insignis). Além disso, Apuleio nos informa que Crates costumava copular com sua consorte Hiparque, em frente ao Pórtico Pintado, em plena ágora ateniense (Floridum 14).
O espírito de controvérsia associado aos cínicos teve enorme influência no pensamento greco-romano (LESKY, 1996, p. 672). A sinceridade destemperada desses filósofos teve repercussão negativa entre as demais escolas filosóficas e causou muita reação entre estóicos e epicureus. É, por essa razão, que os demais gregos passaram a se referir a eles como cínicos, isto é, “caninos”. O próprio Diógenes de Sínope, fundador dessa escola filosófica, aceitou o apelido de “Diógenes, o cão”. Não se deve menosprezar a influência dos sistemas filosóficos greco-romanos sobre o pensamento dos escritores neotestamentários que ora os aprovam e ora os rejeitam, a depender do teor de seu conteúdo (TORRES, 2006). Minha proposta é que os cães de Ap 22:14-15 sejam justamente as pessoas de comportamento aberrante que o mundo greco-romano havia se acostumado a chamar de cínicos (“caninos”). O apóstolo João pode estar simplesmente fazendo um alerta de que o comportamento espalhafatoso e abertamente ofensivo, a revolta pelo simples prazer da revolta, a crítica inamistosa e a imoralidade frívola, tudo isso pode impedir que o cristão, um dia, ingresse no paraíso escatológico a ele prometido pelas Escrituras.
Além disso, ao contrário do que pode ter acontecido no Oriente (se é que a afirmação de Robertson de que os orientais desprezavam os cães é verdadeira), os gregos e os romanos tinham grande proximidade com seus cães de estimação. Desde a referência ao famoso cão Argos, pertencente a Ulisses, na Odisséia, até as inúmeras estelas funerárias gregas que costumeiramente incluíam as figuras dos cães ao lado dos donos falecidos, evidências abundam de que o mundo greco-romano amava esses animais. Aliás, não se pode dizer que o termo “cínico” era pejorativo. Pelo contrário, ele pode ter até contribuído para a aceitação desses filósofos que voluntariamente usavam o epíteto de “cães” para chamar a si mesmos.
Em sua epístola aos efésios (7.1), Inácio interpreta os “cães” de Apocalipse como sendo “aqueles que rejeitam a verdade e se endurecem contra a graça”. Não poderia haver uma descrição mais precisa dos cínicos de sua época: homens obstinados, que rejeitavam as tradições e a razão, com o firme propósito de se oporem à sociedade em que viviam. Talvez seja, por isso, que Jesus hesite em deixar que o evangelho seja levado a pessoas assim (Mr 7:6). Dessa forma, a majestade do evangelho não pode ser vilipendiada pela hostilidade daqueles que se opõem a tudo que existe no mundo, seja no campo material ou no espiritual. Obviamente, não posso provar que a referência a “cães” no Novo Testamento tenha como única referência os cínicos. É certo que, nos evangelhos, o termo se refira mesmo aos gentios. Entretanto, quero sugerir que a expressão apocalíptica tenha essa acepção principal. Há indícios de que o cinismo tenha florescido de maneira mais intensa sob a dinastia flaviana. Ora, Domiciano, sob quem João foi condenado a Patmos, foi um dos mais conhecidos imperadores dessa dinastia.

Haverá, então, animais no céu?
O manuscrito 4Q394, encontrado, em Qumran, no Mar Morto, nos dá uma pista por que os judeus antigos, contrariamente às práticas do Ocidente, pareciam avessos à presença de cães em Jerusalém. O manuscrito traz uma proibição quanto à manutenção de cachorros nas imediações do templo, porque estes insistiam em desenterrar os ossos dos animais ali sacrificados. Da mesma forma, o livro apócrifo conhecido como Atos de André também sugere que os primeiros cristãos tinham uma atitude ambivalente para com os cães, pois essa obra nos informa que alguns cristãos acreditavam ser o cachorro um animal cuja forma o diabo gostava de assumir. Apesar dessas considerações negativas, não há nada que nos sugira que a ocorrência da palavra “cães” no Apocalipse deva ser interpretada literalmente. Além disso, o Antigo Testamento fala abundantemente da existência de animais na Nova Terra. A passagem mais famosa nesse contexto é Is 65:25: “o lobo e o cordeiro se apascentarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; e pó será a comida da serpente. Não farão mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor”. O texto é uma repetição ligeiramente alterada de Is 11:6: “e morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará”. A passagem é, no entanto, aplicável primariamente ao antigo Israel e não à Igreja atual. Entretanto, como a maioria das profecias do Antigo Testamento é reaplicável à Igreja, pode-se imaginar que haverá animais na Nova Terra.
O reverendo Richard Phillips, pastor da primeira Igreja Presbiteriana Coral Springs, em Margate, na Flórida, responde a pergunta “haverá cães no céu?” com a seguinte afirmação: “provavelmente haverá, mas não o seu cachorro”. O que ele quer dizer é que, na reacriação da natureza, provavelmente Deus embelezará nosso planeta com espécies animais e vegetais, como o livro de Gênesis relata que Ele fizera na semana da criação. No entanto, não podemos estar certos de que isso se dará por meio da ressurreição dos animais que antes existiram na Terra. Pode ser que Deus simplesmente decida criar novos animais para essa finalidade.

Conclusão
Ellen White não fala muito sobre “cães”. Nas vezes em que a expressão ocorre em seus livros, esta se refere principalmente aos gentios de Mt 7:6 ou 15:22-28. Entretanto, no contexto da educação dos filhos, Ellen White (OC, p. 251) nos lembra que crianças não são como cães ou cavalos aos quais podemos dar ordens indiscriminadamente. Isso talvez seja útil para nos lembrar que o inverso também é verdadeiro. Por mais que amemos a esses animais, devemos sempre nos lembrar que eles não são crianças e, portanto, não devem ter a prioridade em assuntos domésticos.
Rudyard Kipling escreveu um poema no qual afirma que se pudesse dar a Jesus um único presente, dar-lhe-ia um cão. Mark Twain disse, por sua vez, que, se não há cães no céu, ele preferiria ir aonde eles foram. Esses são, obviamente, exageros. Não há que se chegar a tanto. Porém, talvez seja importante para nossa sensibilidade pós-moderna saber que a Bíblia não descarta a possibilidade de que haja cães na Nova Terra. De qualquer forma, ainda que não haja cães no céu, eles estarão lá, pois os levaremos conosco em nosso coração.

BAINTON, Roland. Luther on birds, dogs and babies. Luther Today. Decorah, Iowa: 1957.

BONNARD, Pierre.
 L’évangile selon Saint Matthieu. 2. ed. Geneva: Labor et Fides, 1982.

DONIGER, Wendy. Hell is other people; heaven is other dogs.
 On Faith. 28/06/2007.

HALL, Bill. Who will look after the dogs in heaven?
 Tribune. Lewiston, Idaho: 25/05/1990.

HUMMEL, Reinhart.
 Die Auseinandersetzung zwischen Kirche und Judentum im Matthäusevangelium. Munich: Kaiser, 1966.

LESKY, Albin.
 A history of Greek literature. Indianapolis: Hackett, 1996.

LUTHER, Martin.
 Selections from the table talk. Tradução: Henry Bell. London: The House of Commons, 1646.

MCCONKIE, B.
 Mormon doctrine. Salt Lake City, Utah: Bookcraft, 1966.

PHILLIPS, Richard.
 Will there be dogs in heaven? Alliance of Confessing Evangelicals. 2007.

ROBERTSON, Archibald T.
 Word Pictures in the New Testament. Nashville: Broadman, 1932.

SHARP, Robert T.
 No dogs in heaven? scenes from the life of a country veterinarian. New York: Carroll & Graf, 2005.

SIMS, David C.
 The gospel of Matthew and Christian Judaism: the history and social setting of the Matthean community. Edinburgh: T. & T. Clark, 1998.

SMILLIE, Gene R. “Even the dogs”: gentiles in the gospel of Matthew.
 Journal of the Evangelical Theological Society, v. 45, n. 1, p. 74-96, 2002.

TORRES, Milton L. The stripping of a cloak: a topos in Classical and Biblical literature.
 Hermenêutica, Cachoeira, BA: v. 1, n. 1, p. 45-54, 2001.

__________. Felix’s refusal to further listen to Paul as a statement of philosophical superiority.
 Philica, n. 70, p. 1-3, 2006.
http://philica.com/display_article.php?article_id=70

WHITE, Ellen G.
 Orientação da criança. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, [1990?].


Este artigo foi publicado originalmente, com ligeiras alterações, em TORRES, Milton Luiz . O destino dos cães.
Ministério, Tatuí, SP, v. 79, p. 27 - 29, 01 fev. 2008.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

10 Perguntas para os que NÃO Acreditam na Trindade (Prof. Azenilto G. Brito )



1. Se Jesus era menor do que Deus, como pode também ser “o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Heb. 13:8)?

2. Já que o Senhor não dará a Sua glória a nenhum outro ser (Isaías 42:8; 48:11) como pôde o Senhor Jesus pedir ao Pai: “Glorifica-Me contigo mesmo com a glória que Eu tive junto de Ti, antes que houvesse mundo” (João 17:5). E como pôde Pedro atribuir-lhe glória, que só deveria ser atribuída a Deus (2 Pedro 3:8)?

3. Jeová Se refere a Si mesmo como tendo sido traspassado (Zacarias 12:1 e 10), mas como em Apocalipse 1:7 todos verão a Cristo como Aquele que foi traspassado?

4. Como podem tanto Jesus como Jeová revelar-Se com a mesma designação, “Eu sou” (Êxodo 3:14; João 8:58; 18:5, 6 e 8)?

5. Jeová é o primeiro e o último (Isaías 41:5; 55:6; 48:12), mas o mesmo qualificativo é atribuído a Jesus: Apocalipse. 1:11-17; 2:8; 22:13. Como pode haver dois primeiros e dois últimos?

6. Como explicam que Isaías 6:1:1-10 apresenta a visão do profeta que claramente se refere a Jeová, sentado no Seu alto e sublime trono, mas João 12:36-41 aplica a passagem a Jesus e Paulo informa que quem disse aquelas palavras a Isaías foi o Espírito Santo (Atos 28:25-27)?

7. Pode Jesus ser adorado não sendo Deus (Mateus 2:2, 8, 11; 14:33; 15:25; 20:20; 28:9, 17; Marcos 5:6; Lucas 24:52; João 9:38) quando Deus mesmo manda os anjos adorá-lo: Hebreus 1:6?

8. Se Jesus Cristo não é Deus, por que não corrigiu Tomé quando este a Ele se referiu dizendo: “Meu Senhor e meu Deus”(João 20:28)?

9. Como explicar que Cristo foi ressuscitado pelo Pai (Atos 10:40; 13:30), por Seu próprio poder (João 10: 17, 18) e pelo Espírito Santo (Romanos 8:11)?

10. Se o Espírito Santo não é uma divina pessoa, por que Se dirige a Si mesmo com um pronome pessoal: Atos 13:2, 4?


Prof. Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura
Bessemer, Ala., EUA

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Amigos (Vinicius de Morais)





Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o
amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que
tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus
amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não
posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm
noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu
equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente,
construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em
síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.              
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos,
cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer ...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a
roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando
comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus
amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber
que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

A Igreja Adventista e a Teoria da Conspiração (Milton L. Torres, PhD)





De acordo com sua página na internet (http://www.ministerio4anjos.com.br), o Ministério 4Anjos é uma entidade sem fins lucrativos, para, “assim como os quatro anjos do livro do apocalipse, proclamar as três mensagens angélicas” relatadas em Ap 14, fazendo objeções principalmente à organização formal das igrejas porque, segundo eles, “normas e manuais eclesiásticos” os impedem de adorar a Deus segundo os ditames de sua consciência. Essa organização tem feito circular um panfleto, sem título, identificado apenas como “Convite especial: verdades bíblicas para o terceiro milênio”, entre os adventistas do sétimo dia.
O panfleto traz pelo menos três acusações sérias contra a administração/liderança da igreja adventista: em primeiro lugar, que a organização adventista publicou recentemente, nos Estados Unidos, um livro a favor da guarda do domingo e contra a guarda do sábado; em segundo lugar, que o fato de as igrejas adventistas abrirem aos domingos para a realização de cultos faz parte de uma conspiração levada adiante pela liderança adventista para trazer o ecumenismo para o seio da igreja; e, finalmente, que a liderança adventista tem retido luz dos membros da igreja ao não publicar alguns artigos de Ellen White e os livros dos pioneiros Waggoner e Jones. De modo geral, essa teoria da conspiração apenas apresenta ecos aos argumentos publicados por Russell R. Standish, em suas obras The greatest of all the prophets (“A maior de todos os profetas”, título elogioso em referência a Ellen White) eHalf a century of apostasy: the new theology’s grim harvest (“Meio século de apostasia: a colheita sinistra da nova teologia”), publicadas pela editora Hartland.
Toeria da Conspiração 1: um livro adventista para defender o domingo
Ao receber o panfleto do Ministério 4Anjos, minha primeira atitude foi adquirir o livro. Trata-se da obra Confessions of a nomad (“Confissões de um nômade”), do casal William L. Self e Carolyn Shealy Self. Porém, em momento algum, o panfleto menciona o nome dos autores da obra. Há uma figura da capa do livro, mas a qualidade da impressão não é suficientemente boa para que se possam ler as informações contidas nela. De fato, os autores do panfleto dão a impressão de que foi a Associação Ministerial da IASD que escreveu o livro. Há abaixo da figura uma frase em inglês: “by the Ministerial Association of the CG of SDA!” (“pela Associação Ministerial da AG da IASD”). A legenda em inglês me faz supor que os autores do panfleto nunca tenham tido, de fato, acesso ao livro, mas basearam suas considerações em outro panfleto, provavelmente escrito em inglês, ou na internet.
Quando recebi o livro pelo correio, percebi que não era a mesma edição citada no panfleto, mas a edição originalmente publicada, em 1983, por uma editora não adventista, a Peachtree Publishers, em uma publicação da Convenção Batista. Depois de comparar a própria obra com as citações no panfleto, verifiquei que, apesar da edição e paginação discordantes, eu tinha, de fato, adquirido a mesma obra descrita pelo Ministério 4Anjos. Os autores são, respectivamente, ex-vice-presidente da Convenção Batista do Sul e ex-membro da Comissão Diretiva do Seminário Batista, em São Francisco, nos Estados Unidos. O casal é, além disso, autor de um conhecido livro de aconselhamento matrimonial: A survival kit for marriage (“Um kit de sobrevivência para o casamento”). Depois de duas visitas à região do Monte Sinai, os autores se dizem impressionados pela paisagem do lugar e pela reflexão que empreenderam sobre a vida de Moisés. Este é, com efeito, o nômade apresentado nesse livro devocional. O livro traz um estudo, sob forma de reflexões, da vida de Moisés durante o êxodo. Por isso, em dois momentos aborda a questão do dia de guarda: no episódio do maná e na entrega dos dez mandamentos.
O panfleto do Ministério 4Anjos apresenta apenas citações extraídas das reflexões sobre os dez mandamentos e parece ignorar o que os autores falam a respeito do episódio da queda do maná. Além disso, embora o panfleto apresente apenas excertos, passa a impressão de que está fornecendo o texto integral. No entanto, o pior defeito da argumentação é que o tradutor dos fragmentos citados, embora gramaticalmente correto, parece não saber trafegar, de forma precisa, no campo semântico do assunto. Os autores do livro são, obviamente, guardadores do domingo. Apesar disso, quando eles empregam a palavra Sabbath, eles não estão se referindo ao “sábado”. Talvez, por essa razão, o panfleto não faça referência às passagens que lidam com a recolha do maná, pois nessas passagens fica clara a neutralidade do termo Sabbath. A palavra Sabbath no livro significa simplesmente “dia de guarda”. O casal Self não está desqualificando a guarda do sétimo dia da semana. Ele está contrastando a guarda do dia de repouso pelos judeus e a guarda do dia de repouso pelos cristãos. Por isso, é possível, para eles, contar a seguinte experiência em relação ao episódio do maná (p. 63):
Durante a corrida do ouro, duas caravanas de carroças partiram para o oeste. Seu destino eram as minas de ouro da Califórnia. A primeira caravana decidiu avançar rapidamente e chegar lá primeiro. A segunda caravana decidiu tirar um dia da semana para descansarem e aliviarem os cavalos, e para irem à igreja a fim de louvar a Deus. Bem, a primeira caravana se esforçou pela dianteira e chegou ao Mississippi antes da outra caravana. Ficaram animados. Começaram a ir mais depressa. Depois de algumas semanas nesse ritmo, porém, as pessoas começaram a discutir entre si. Então, as carroças começaram a quebrar, e os cavalos tiveram problemas. Todas as coisas e todas as pessoas ficaram quebradas. Não é preciso dizer que a segunda caravana chegou às minas de ouro antes da primeira. A caravana que tirou o sábado (Sabbath) para adorar e descansar suportou muito mais os rigores daquela jornada difícil. Eram pessoas que tinham o culto a Deus na alma. E você? Você já se permitiu ter os gozos de um sábado? Você já desfrutou da experiência revitalizadora do culto?
Como se percebe, os autores do livro usam a palavra sábado (Sabbath) em um sentido positivo e não negativo. Quando o casal Self faz a comparação entre o sábado e o domingo (citada pelo panfleto), ele está, de fato, comparando como os judeus guardavam o sábado e como os cristãos o fazem, sem necessariamente se referir a que dia devemos guardar. Apesar disso, embora a obra não seja tão ofensiva para uma pessoa que fale inglês e entenda que a palavra Sabbath não se refere, em inglês, apenas ao sétimo dia da semana, ela foi suficientemente problemática para ter merecido diversas reclamações na internet. Ao dizer Happy Sabbath (“Feliz dia de repouso”), um batista se refere ao domingo e um adventista ao sábado. Infelizmente, na língua inglesa, a palavra Sabbathadquiriu, ao longo dos anos, o sentido também de dia de descanso. Por isso, em inglês, o nome dos adventistas se tornou “adventistas do sétimo dia” e não “adventistas do sábado (Sabbath)”, que teria gerado verdadeira confusão. Eu sei que isso pode ser uma surpresa para aqueles que não falam inglês, mas a palavra Sabbath significa, naquela língua, tanto sábado quanto domingo. Por essa razão, quando damos estudos bíblicos aos americanos, a primeira coisa que precisamos fazer é lhes provar que o Sabbath é o sétimo dia e não o primeiro dia da semana.
Por isso, posso dizer, sem hesitação, que, longe de pretender defender o domingo como dia de guarda, a venda do livro me parece pretender conclamar os adventistas à guarda mais conscienciosa do verdadeiro Sabbath, o sétimo dia. Além disso, devemos compreender que a sociedade americana é muito mais aberta do que a brasileira às diferenças de opinião. Os adventistas daquele país têm, em sua maioria, a maturidade necessária para ler um livro que enfatiza a necessidade da escrupulosa observância do dia de repouso e se beneficiar dele, ainda que tenha sido escrito por aqueles que guardam o domingo.
Por outro lado, é fato que o livro provocou certo mal-estar mesmo entre os adventistas dos Estados Unidos: por que publicar um livro batista sobre uma viagem ao Sinai se dois adventistas bastante conhecidos (William A. Fagel, do “Fé para Hoje”, e Leona Running, professora emérita de grego da Universidade Andrews) escreveram livros sobre o mesmo assunto? Falando a respeito do livro do casal Self, o Pr. James Cress, secretário da Associação Ministerial da Associação Geral, se pronunciou que a publicação do livro havia sido encomendada pelos próprios autores que haviam feito um contrato com a Pacific Press para publicar cinco de suas obras: Confissões de um nômadeSurvival kit for the stranded (“Kit de sobrevivência para os desviados”), Learning to pray (“Aprendendo a orar”), Before I thee wed(“Antes de me casar com você”) e Kit de sobrevivência para o casamento. Aparentemente, certa amizade havia se desenvolvido entre a editora e os autores porque, em primeiro lugar, em sua obra Kit de sobrevivência para o casamento, o casal Self inclui material semelhante àquele apresentado por Ellen White na Ciência do bom viver e, em segundo lugar, porque o casal já apresentou diversas palestras para os ministros adventistas dos Estados Unidos. O Pr. Cress também informa que a contracapa do livro identifica os autores como sendo batistas, o que deveria bastar para que as pessoas lessem o livro com reservas.
Apesar dessas considerações, no dia 18 de setembro de 2000, a Associação Ministerial decidiu remover os livros das prateleiras do SELS e ofereceu reembolsar a todos que quisessem devolver o livro. A consternação de alguns adventistas não diminuiu mesmo diante desse fato, pois eles esperavam uma desculpa formal da organização. Beneficiando-se dessa situação, os proponentes da teoria da conspiração reivindicaram o acontecimento como uma prova de sua suposição de que existe atualmente uma conspiração da liderança adventista para a adoção do ecumenismo. Em defesa da Associação Ministerial, pode-se dizer que as demandas do trabalho pastoral e administrativo às vezes nos impedem de dar a devida atenção mesmo àqueles assuntos que a merecem. A Associação Ministerial deveria ter previsto, primeiramente, as reações à publicação do livro; em segundo lugar, no contrato deveria rezar uma cláusula que artigos ofensivos à fé adventista fossem extirpados do livro; e, finalmente, os livros deveriam ter sido recolhidos ao primeiro sinal de problema e não quando a situação já havia quase saído de controle. Ainda assim, atestamos categoricamente que não há qualquer intenção da igreja ou de sua administração em sacrificar os princípios da Palavra de Deus com vistas à convivência mais tranquila com membros e pastores de outra denominação, muito menos em prol do ecumenismo.
Teoria da Conspiração 2: cultos evangelísticos no domingo
                O culto evangelístico aos domingos não constitui prática radical. Sua realização tem raízes em sólida teologia. Jesus e os discípulos não limitaram seu ministério ao sábado ou ao templo (At 2:46; 5:42; 20:7). Algumas das principais oportunidades que Jesus teve para o ministério ocorreram em momentos comuns do dia-a-dia e em lugares onde Ele tinha acesso às pessoas. Por outro lado, adorar no domingo ou em qualquer outro dia da semana não torna qualquer um desses dias o dia de guarda dos cristãos, claramente identificado nas Escrituras como sendo o dia de sábado (Êx 20:8-11).
                Hoje em dia, as reuniões evangelísticas aos domingos não são uma prática comum nos Estados Unidos, embora haja alguns casos na Califórnia e Nevada. Diante do declínio no número de batismos, algumas igrejas norte-americanas (como, por exemplo, em Riverside e Las Vegas) sentiram, a partir da década de 80, o ímpeto de seguir o exemplo das igrejas da América Latina e de outras partes do mundo na realização de cultos evangelísticos aos domingos. As reuniões com propósitos evangelísticos aos domingos, nos países latino-americanos, constituem uma prática consagrada pela história da Igreja nesses países. No entanto, tem havido, nos Estados Unidos, alguma rejeição dos membros americanos à possibilidade de culto aos domingos. Isso tem contribuído para que mais uma suposta “prova” seja acrescentada às obras daqueles que acreditam na teoria da conspiração.
                Ellen White dá apoio incondicional aos cultos aos domingos. Ela escreve, no livro Testimonies (v. 9, p. 233), a seguinte declaração (repetida no livro Serviço cristão, p. 164):
O domingo pode ser usado para o desempenho de várias linhas de trabalho que muito realizarão pelo Senhor. Nesse dia, podem-se realizar reuniões ao ar livre ou em cabanas. A obra de visitação de casa em casa também pode ser realizada. Aqueles que escrevem podem dedicar esse dia a escreverem seus artigos. Quando for possível, que cultos religiosos sejam realizados aos domingos. Façam essas reuniões intensamente interessantes. Cantem hinos de reavivamento genuíno e falem com poder e certeza do amor do Salvador. Falem do assunto da temperança e da verdadeira experiência religiosa.
Aqueles que se escandalizam com os esforços empreendidos por nossos obreiros em conviver, de forma harmoniosa, com membros de outras denominações, fariam bem em estudar a história dos nossos pioneiros. Certa ocasião, Ellen White narrou que eles alugaram uma de nossas igrejas para os membros de uma igreja presbiteriana realizarem seus cultos aos domingos pois seu templo havia sido destruído por um acidente. Segundo Ellen White, isso causou enorme inconveniente aos nossos irmãos, mas eles se sentiram confortados pela gratidão que receberam dos presbiterianos (Selected messages, v. 3, p. 322). Se a mera realização de cultos aos domingos fosse uma prática pecaminosa, Ellen White jamais teria concordado em ceder nosso templo para sua realização.
De fato, os cultos evangelísticos aos domingos fazem parte da herança adventista. Quando Ellen White visitou a Escandinávia, ela especialmente elogiou os esforços dos irmãos daquela região em alugar auditórios, mesmo diante de alto custo, para a realização dos cultos de domingo (Historical sketches of the foreign missions of the Seventh-day Adventists, p. 183). Na Suíça, Ellen White participou dos cultos evangelísticos que eram comumente realizados aos domingos pelos primeiros adventistas que se converteram naquele país (Review & Herald, 20-07-1886). Ela não demonstrou nenhuma insatisfação com essa prática. Ellen White teve, inclusive, a oportunidade de pregar em uma reunião evangelística realizada em Roma, a poucos quilômetros do Vaticano, a sede da Igreja Católica (Review & Herald, 03-09-1889). Além disso, quando Ellen White viajou para a Austrália, como não havia cultos aos sábados no navio, ela não se sentiu constrangida em se unir aos pastores metodistas que viajavam no mesmo navio e participar dos cultos que eram ali oferecidos aos domingos (Review & Herald, 09-02-1892). Conforme nos informa Arthur L. White (Ellen G. White: the Australian years, v. 4, p. 106), na Austrália, diante do fato de que os irmãos não haviam conseguido um lugar apropriado para o culto evangelístico de domingo, Ellen White sugeriu que este fosse realizado a céu aberto. Ellen White também pregava nos cultos realizados aos domingos mesmo na América do Norte. Um exemplo disso aconteceu quando ela foi convidada a pregar em Melrose e Buffalo (Review & Herald, 16-12-1909).
O panfleto do Ministério 4Anjos desdenha da razão apresentada pelos adventistas de que os cultos aos domingos deveriam ser realizados para benefício daqueles que ainda não pertencem a nossa igreja. No entanto, foi a própria Ellen White quem deu essa explicação àqueles que, em sua época, objetavam a que os adventistas realizassem cultos aos domingos. Segundo ela, “nós deveríamos ter lugares de reunião para que, aos domingos, aqueles que se sentem inclinados a ouvir a verdade, possam vir a nossos cultos” (Manuscript releases, v. 20, p. 165). Como se percebe, a realização de cultos evangelísticos aos domingos sempre foi uma prática dos adventistas do sétimo dia. Deixar de realizá-los seria um sinal de apostasia.
Teoria da Conspiração 3: a retenção de luz
A terceira acusação que o panfleto do Ministério 4Anjos faz à organização adventista é de que esta tenha deliberadamente retido luz de seus membros ao não publicar, em português, todas as obras de Ellen White e as importantes obras de Waggoner e Jones. Aqueles que publicam um panfleto de onze páginas talvez ignorem quão dispendioso é o processo de tradução e publicação de obras estrangeiras.
A Casa Publicadora Adventista (CPB), editora oficial da IASD, tem dado importantíssima contribuição para a igreja ao gradativamente traduzir e publicar as obras de Ellen White. Ao longo dos anos, várias dessas obras têm sido disponibilizadas ao público adventista e aos amigos da igreja: Ainda existe esperança, Atos dos apóstolos  (1957), Abatalha final (1989), Beneficência social (1964), Caminho a Cristo (Vereda de Cristo, Vida abundante ou Paz na tempestade)A ciência do bom viver (1947), O colportor evangelista (1953), Como conviver com os outros, Como lidar com as emoções, Como surgiu o pecadoConselhos a professores, pais e estudantes (1947), Conselhos aos idosos (2003), Conselhos sobre a Escola Sabatina (1940), Conselhos sobre educação (1976), Conselhos sobre mordomia,  Conselhos sobre o regime alimentarConselhos sobre saúde (1971), Cristo em Seu santuário (1969), Cristo triunfante (meditações matinais de 2002), Desejado de todas as nações (1943), Educação  (1937), Este dia com Deus (meditações matinais de 1980), Evangelismo (1959), Eventos finais(1993), Exaltai-O (meditações matinais de 1992), Fé e obrasA fé pela qual eu vivo (meditações matinais de 1959), Filhos e filhas de Deus (meditações matinais de 1956), Foi por vocêFundamentos da educação cristã (1976), O grande conflito(1923), História da redenção, A igreja remanescente (1974), Jesus, meu modelo (meditações matinais de 2009), Jóias do pensamentoO lar adventistaO lar sem sombras, Liderança cristã (1988), Nos lugares Celestiais (meditações matinais de 1968), O maior discurso de Cristo (1953), Maranata: o Senhor vem! (meditações matinais de 1977), A maravilhosa graça de Deus (meditações matinais de 1974), Medicina e salvação (1973), O melhor da vida (versão simplificada de A ciência do bom viver), Mensagens aos JovensMensagens Escolhidas (1966-1987), Mente, caráter e personalidade (1989), Minha consagração hoje (meditações matinais de 1953), Música: sua influência na vida do cristão, Nossa alta vocação(meditações matinais de 1962), No deserto da tentaçãoO obra daquele outro anjo (1974), Obreiros evangélicosOlhando para o alto (meditações matinais de 1983), Orientação da criança, Parábolas de Jesus (1954), Para conhecê-Lo (meditações matinais de 1965), Patriarcas e profetas (1929), A paixão de CristoPrimeiros escritos (1967), Profetas e reis (1961), E recebereis poder (meditações matinais de 1999), Refletindo a Cristo (meditações matinais de 1986), Santificação, Ser mãe, o que é?Serviço cristãoSó para jovensTemperança (1969), Testemunhos para a Igreja (1954-2004), Testemunhos para ministros e obreiros evangélicosTestemunhos seletosTestemunhos sobre conduta sexual, adultério e divórcio (2002), A verdade sobre os anjos (1998), Vida e ensinos (1934), Vida no campoVidas que falam (meditações matinais de 1971), Visões do céu. Esta longa lista é um testemunho eloquente de que a CPB tem se esforçado para disponibilizar os escritos de Ellen White a todos aqueles que por eles se interessem. Além disso, há um site, na internet, que dá acesso a praticamente todos os escritos originais de Ellen White, em inglês: http://www.egwtext.whiteestate.org/.
Quanto aos escritos de E. J. Waggoner e A. T. Jones, não resta dúvida de que se trata de obras produzidas por dois importantes pioneiros da IASD. Ambos foram, durante algum tempo, os editores dos periódicos adventistas Signs of the Times (Waggoner e Jones), Review & Herald (Jones) e American Sentinel (Jones), havendo preparado vários de seus artigos. Em 1888, Waggoner e Jones apresentaram uma memorável série de sermões sobre justificação pela fé na assembléia da Associação Geral, em Mineápolis. As obras de Waggoner incluem The glad tidings (“As boas novas”, 1900), The everlasting covenant (“O concerto eterno”, 1896), The gospel in creation (“O evangelho na criação”, 1895), The gospel in Galatians  (“O evangelho em gálatas”, 1887), Sermons on Romans (“Sermões sobre romanos”, 1891), Christ and His righteousness (“Cristo e Sua justiça”, 1889) e Prophetic lights (“Luzes proféticas”). Essas obras foram publicadas pelas editoras da IASD em inglês e algumas delas se encontram disponíveis na internet.
É estranho que o Ministério 4Anjos acuse a igreja de ocultar essas publicações do grande público, mas deixe de se referir a inúmeras outras obras publicadas pelos demais pioneiros da denominação e que tampouco foram traduzidas para a língua portuguesa. John N. Andrews, um dos mais destacados pregadores dos primórdios da IASD nos legou obras como Three messages of Revelation 14 (“Três mensagens de Apocalipse 14”, 1877), The sanctuary and twenty-three hundred days (“O santuário e os 2300 dias”, 1872), Sermon on the two covenants (“Sermão sobre os dois concertos”, 1875), The complete testimony of the fathers of the first three centuries concerning the Sabbath and first day (“O testemunho completo dos pais dos primeiros três séculos concernente ao sábado e ao primeiro dia”, 1873), The Sunday seventh-day theory: an examination of the teachings of Mede, Jennings, Akers, and Fuller (“A teoria de que o domingo é o sétimo dia: um exame dos ensinos de Mede, Jennings, Akers e Fuller”, 1884), The judgment, its events and their order (“Os juízos, seus eventos e sua ordem”, 1890) e The Sabbath and the law (1890?). Essas obras de John N. Andrews colocam-se como intimamente ligadas à história da IASD e às suas mais fundamentais doutrinas. Elas não ocupam, de modo algum, um lugar secundário em relação aos escritos de Waggoner e Jones. O mesmo pode ser dito com respeito aos livros de Joseph Bates: The opening heavens (“Os céus se abrindo”, 1846), The seventh-day Sabbath (“O sábado do sétimo dia”, 1846), A word to the little flock (“Uma palavra ao pequeno rebanho”, escrita em conjunto com Tiago e Ellen White, em 1847), A vindication of the seventh-day Sabbath and the commandments of God (“Uma vindicação do sábado do sétimo dia e dos mandamentos de Deus”, 1848), A seal of the living God (“O selo do Deus vivo”, 1849) eAn explanation of the typical and anti-typical sanctuary (“Uma explicação do santuário típico e antitípico”, 1850). No entanto, a maioria desses livros ainda não se encontra traduzida para a língua portuguesa. O fato é que os pioneiros adventistas eram homens inteligentes e capazes que nos legaram uma ampla obra de suporte às crenças adventistas. Como traduzir e publicar tantas obras com os poucos recursos de que ainda dispomos? Devemos louvar a intenção do Ministério 4Anjos de ajudar com a tradução de pequenos trechos de Waggoner e Jones. Por outro lado, não podemos aceitar a crítica de que a IASD tenha propositalmente se eximido de publicar essas obras. Além disso, traduzir as obras de dois pioneiros que tinham posições antitrinitarianas (também defendidas pelo Ministério 4Anjos) e negligenciar as obras de inúmeros outros que não as tinham é que parece ser uma conspiração.
Conclusão
Um exame cuidadoso das três graves acusações feitas pelo Ministério 4Anjos à administração/liderança da igreja adventista (de que esta publicou um livro a favor da guarda do domingo, de que cultos evangelísticos aos domingos fazem parte de uma conspiração para trazer o ecumenismo para o seio da igreja e de que a liderança adventista tem retido luz dos membros da igreja) mostra que essas acusações não se comprovam. Elas assumem um caráter de zelo excessivo semelhante àquele praticado pelos fariseus, que se preocupavam mais com a letra da lei do que com o Espírito que o evangelho requer.
O Ministério 4Anjos vê limitações nos esforços empreendidos pela igreja adventista para cumprir sua comissão evangélica. De sua parte, a igreja reconhece a impossibilidade de que exerçamos um ministério perfeito senão simplesmente pelo fato de que existimos em um mundo ainda marcado pelas incapacitantes deficiências que o reino do pecado produziu. Por outro lado, a igreja adventista declara sua boa-fé no tratamento das importantes questões pertinentes ao bem-estar e à segurança espiritual de seus membros. Além disso, temos ciência de que seremos julgados por Aquele cuja percepção é mais penetrante do que o restrito olhar de seres humanos falhos e defeituosos. Confiados na misericórdia de Deus, convidamos os que agora se felicitam por encontrar dificuldades no caminho trilhado pela igreja adventista a que, em vez disso, venham nos ajudar, com diligência e dependência recíproca, a preparar as veredas para o retorno de nosso Senhor.

A nova busca pelo Jesus histórico (Milton L. Torres, PhD)






Ao longo da história a pessoa de Jesus sofreu ataques múltiplos e de diversas formas. Um desses ataques mais ferozes foi a negação de sua historicidade; ou seja, que a pessoa de Jesus jamais teria existido. Recentemente, contudo, Jesus tem sido posto sob fogo cerrado em uma perspectiva bastante diferente. Os cientistas agora dizem que eles creem na existência histórica de Jesus, mas que, para conhecer sua pessoa, é necessário eliminar os mitos com os quais Jesus ficou associado por causa dos acréscimos feitos ao registro escrito por seus seguidores. Afirmam eles que Jesus não disse todas as coisas que a Bíblia lhe atribui nem tampouco realizou todos os feitos que as Escrituras registraram como sendo obra Sua. Jesus precisa, nessa perspectiva, ser despido dos antigos mitos que o cercam a fim de que o homem moderno possa ouvir sua verdadeira mensagem.
Uma outra novidade da busca pelo Jesus histórico como ela agora ocorre é que, pela primeira vez, o debate é trazido ao nível do homem comum. Antes disso, as discussões se limitavam ao ambiente acadêmico das universidades secularizadas, mas desde a criação do movimento conhecido como The Jesus Seminar (“o Seminário de Jesus”), as discussões foram trazidas ao forum público. O Seminário de Jesus foi criado em 1985 por Robert Funk e John Dominic Crossan, entre outros, com os objetivos de atribuir um grau de consenso acadêmico às falas atribuídas pela Bíblia a Jesus e de tornar públicas suas descobertas. Seu desejo era “liberar” Jesus dos “mitos” com Ele associados. Assim, muitos dos recentes ataques ao Jesus histórico advêm das tentativas de descobrir o que realmente aconteceu na história. Isso tem produzido uma interessante contradição de métodos e pressuposições entre os cientistas que combinam o otimismo modernista em relação ao método científico, a valorização excessiva da informação nos últimos quinze anos (a assim-chamada “Idade Mídia” ou “Idade Líquida”) e o ceticismo pós-moderno. Essa postura é um reflexo do que N. T. Wright chama de “imperialismo cultural do Iluminismo”, uma atitude que considera que somente nos últimos duzentos anos o homem descobriu o verdadeiro sentido da história. Antes disso, a história teria sido escrita por autores que faziam acréscimos livres ao seu relato, costurando fantasia e lenda em um tecido que chamavam de história.
Os cientistas consideram, agora, que os evangelhos são narrativas nas quais a memória de Jesus foi embelezada pela presença de elementos míticos que expressam a fé da igreja nEle, e por ficções plausíveis que agiam como captadores da atenção dos ouvintes dos primeiros séculos da existência da igreja. Por isso, esses cientistas adotam uma postura que coloca o fardo da prova sobre o texto bíblico. Em outras palavras, todas as atividades que o evangelho atribui a Jesus devem ser consideradas fábulas até que se prove o contrário. Os membros do Seminário de Jesus estão comprometidos com um naturalismo rígido, que inteiramente exclui o sobrenatural do registro histórico. Dessa forma, todos os relatos evangélicos que dizem respeito aos milagres de Jesus devem ser considerados como inautênticos. Eles também negam, de maneira enfática, a possibilidade de Jesus prever o futuro. Como os evangelhos descrevem, com exatidão, a queda de Jerusalém no ano 70, a consequência do naturalismo exagerado desses eruditos é que os evangelhos precisam, então, ter sido escritos depois do ano 70. Em razão disso, os autores do evangelho deixam de ser testemunhas oculares e passam a ser pessoas que coletaram as estórias de Jesus e lhes deram a forma de um relato coordenado.
Por Que Uma Nova Busca pelo Jesus Histórico
            A nova busca pelo Jesus histórico não nega a existência histórica de Jesus Cristo, mas o Jesus que é buscado é bastante diferente daquele apresentado pelo Novo Testamento. As culturas populares abraçam, com determinação cada vez maior, o culto à diversidade. Busca-se um Jesus que esteja disponível para ser moldado conforme as necessidades de cada um: o Jesus de Mel Gibson, o Jesus amante de Maria Madalena, entre outros. O que, porém, impulsiona essa busca? Tive a oportunidade de discutir esse assunto em 2006 com o Dr. Wayne Meeks, professor recentemente aposentado da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que estava escrevendo um livro, que já foi publicado, intitulado Jesus is the question (“Jesus é a pergunta”). Segundo ele, uma razão para essa tentativa de se criar um Jesus mais ao gosto pós-modernista se deve, principalmente, a uma certa desilusão, agora geralmente compartilhada pelos cientistas, em relação à história. Ele me disse que os cientistas parecem ter finalmente descoberto os pés de barro da história. No passado, as pessoas investigavam a Bíblia com a sensação de que poderiam, mesmo sozinhas, descobrir a verdade das coisas. Após o Iluminismo, parece que o “gênio da dúvida” escapou da garrafa e está, agora, fora de controle. A ciência alterna, então, momentos de confiança em que defende a validade do método científico e outros em que propõe que todas as coisas são relativas. Como resultado disso, quase todos nos tornamos cínicos.
            As alternativas que surgem parecem não ser muitas. Corremos o risco de reverter a um autoritarismo fundamentalista e oportunista ou sucumbir a um relativismo absoluto. E é justamente porque a Cristandade, de modo geral, ora faz uma coisa, ora faz outra que muitos são levados a questionar a historicidade de Jesus. Os riscos do autoritarismo e do relativismo advêm de cinco faltas que tendemos a cometer hoje em relação aos nossos métodos de interpretação bíblica e nossas atitudes religiosas:
1. o hiperliteralismo e o hipersimbolismo
A hipervalorização do literalismo leva-nos a afirmar que dizer que a Bíblia é verdadeira significa dizer que ela é literal. O sentido pleno de um texto é seu sentido literal. Como resultado, acabamos impondo nossa posição como a única possível e, com frequência, excomungamos aqueles que discordam de nós. Uma investigação mais atenta à natureza da tipologia e do simbolismo bíblico pode nos ajudar a desenvolver uma postura mais tolerante às pequenas diferenças. Por outro lado, se descambamos para um hipersimbolismo em que precisamos encontrar uma explicação simbólica plausível para cada elemento das profecias do Apocalipse, por exemplo, corremos o risco de gastar tantas energias com minúcias insignificantes que acabamos por perder de vista o retrato de Cristo que nos é apresentado nesse e em outros textos do Novo Testamento.
2. o cognitivismo religioso
Com o surgimento de um novo paradigma educacional fortemente influenciado pela relatividade e pela física quântica e a adoção das metodologias construtivistas dele derivadas que, a despeito de suas alegações em contrário, se desenvolvem como metodologias essencialmente cognitivistas uma vez que seu foco principal é a construção do conhecimento, tendemos, cada vez mais, a imaginar que ter conhecimento é a marca identificadora do cidadão autônomo e livre. Se aplicarmos essa lógica ao âmbito religioso, o conhecimento da doutrina passa a ser um elemento definidor da fé de uma pessoa. Está aí uma razão por que os debates teológicos estão tão ao gosto dos membros de nossa igreja. Para ser justo, devo reconhecer que tais debates fazem parte de nossa herança denominacional desde épocas que muito antecedem à sedução de nossos educadores pelas propostas construtivistas, mas temo que nossa adesão, cada vez maior, a essa prática educacional voltada para os aspectos cognitivos levem à hipervalorização dos elementos doutrinários em detrimento das experiências de fé e graça que devem ser os elementos centrais da vida cristã: “porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef. 2:8). Não devemos abrir mão do papel relevante que temos dado à revelação divina como expressa no relato bíblico, mas é preciso compreender que a língua é mais do que as regras da gramática e que saber acerca das coisas que Jesus ensinou não nos isenta de praticar as coisas ensinadas por Ele.
3. o individualismo
            O individualismo é o filho primogênito do construtivismo. A reflexão é a meta essencial do paradigma educacional emergente e, para que ela ocorra, muitas vezes é necessário que o indivíduo seja priorizado em detrimento do sujeito. Nessa perspectiva, a construção do conhecimento deve se dar com autonomia e de forma individual. Isso não significa que não haja espaço para a interação social, mas essa acaba subsidiando a aquisição do conhecimento e não a formação de valores. A valorização do indivíduo em detrimento do sujeito acaba por implicar que as necessidades da pessoa devem se sobrepor às exigências da sociedade. Cada um precisa encontrar seu próprio caminho e sua própria felicidade: a ética se torna uma questão de ótica e todas as formas de pensar o relato bíblico acabam relativizadas.
4. a incessante busca de novidade
Como resultado da sociedade capitalista na qual vivemos e que nos induz a um consumismo inconsequente em que nosso sucesso como pessoas é medido pelo novo modelo de aparelho celular que exibimos ou pelo televisor de plasma que transformamos no altar da família, experimentamos um verdadeiro comichão em busca de novidades: “porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências” (2 Tim. 4:3). Trata-se de verdadeiro “complexo de eureka” que, menos prejudicial quando fruto da expectativa criada por descobertas científicas como os papiros de Herculâneo, os Rolos do Mar Morto, os achados de Nag Hammadi, entre outros, descamba para a invenção de forças perseguidoras camufladas. Não que os cristãos fiéis não mais sejam perseguidos, longe disso! Qualquer um que tenha frequentado uma universidade ou um local de trabalho secularizados sabe que a perseguição aos cristãos ainda está em voga. Mas nunca fui capaz de compreender por que alguns têm que fazer circular documentos de sua própria fabricação que apontam para uma conspiração contra o remanescente fiel, que acaba nunca se desencadeando.
5. o romantismo
            O romantismo é, acima de tudo, uma atitutide emocional doentia, tendo ficado conhecido na história como o “mal do século”. O romantismo é uma rejeição da realidade e uma opção por uma vida fantasiosa, uma abstração mental criada por aqueles que dele padecem. Essa deformação da realidade é geralmente acompanhada de um sentimentalismo exacerbado que beira o erotismo. Quando damos rédeas soltas ao pensamento religioso e quando este não sofre restrições por parte da razão, é possível que a figura de Jesus assuma os contornos da de um verdadeiro amante. O poder de persuasão do romantismo religioso é bastante forte. Mesmo uma pessoa geralmente tão racional como Albert Schweitzer acabou sucumbindo a ele no final de sua obra The quest for the historical Jesus (“A busca pelo Jesus histórico”). Uma vida de comunhão com Cristo produz sentimentos de enlevo genuínos e benéficos, mas uma religiosidade emotiva pode produzir sensações de bem-estar que não passam de mera imitação da real experiência religiosa: “eu fui ao jardim, bem a sós, à fragrância pura e celeste; pude então ouvir, doce e meiga voz, a voz gentil do Mestre.” Se uma experiência como esta não for fruto de verdadeira comunhão com Cristo, ela pode simplesmente indicar que o crente sucumbiu ao romantismo religioso. A ótica do consumo que sugere que as necessidades dos homens os impelem para os objetos e que cria tais necessidades por meio do marketing, da propaganda e das produções holywoodianas acrescenta uma dimensão materialista a essa exclusão máxima do mundo real.
            O que quero sugerir, aqui, é que, embora a nova busca pelo Jesus histórico tenha incorporado metodologias que operam contra as principais denominações cristãs de nossa época, ela pode ser também um reflexo de nossas próprias inadequações com respeito à interpretação da pessoa de Jesus e de como o apresentamos àqueles que nunca tiveram um encontro pessoal com Ele. Se pudermos diminuir a importância que muitos cristãos agora dão a elementos como o literalismo, o cognitivismo, o individualismo, a busca de novidades e o romantismo, talvez possamos ter mais sucesso em canalizar essa busca por Jesus em uma maneira mais positiva e que realmente conduza a sua pessoa histórica.
A Tentativa de Descobrir a Autoconsciência de Jesus
            A topografia do eu, como proposta por Freud, tem exercido uma poderosa influência nos estudos acadêmicos acerca da pessoa de Jesus. Segundo Freud, a verdadeira identidade de uma pessoa só pode ser descoberta depois de vários anos de psicanálise. Assim, os cientistas têm tentado analisar a pessoa de Jesus a fim de descobrir quem Jesus pensava que era. De acordo com eles, construções criativas por parte da igreja primitiva moldaram as crenças em Jesus e, por isso, requer-se, agora, um verdadeiro trabalho de detetive para se descobrir a autoconsciência de Jesus. O modelo dialógico de Vigotsky propõe que quanto mais conhecemos nosso “eu”, mais descobrimos o “outro”. Dessa forma, muitos cientistas propõem, hoje, que quanto mais os discípulos criavam sua própria identidade, tanto mais eles também criavam a identidade de Jesus. Jesus teria, assim, se tornado o Cristo principalmente por sua interação com os discípulos. Essa leitura processualista do desenvolvimento humano, conforme proposta por Norbert Elias, tem trazido os olhares construtivista e interacionista para a dimensão sócio-psicológica da compreensão humana e defendido o que se tem convencionado chamar de conexionismo. Todos os seres humanos estariam, assim, intimamente ligados em uma rede de consciências, daí nossa necessidade de sentir-nos parte de um mundo globalizado e, por isso, gastar tanto tempo com a internet e com as comunidades virtuais.
            Essa postura radical que contempla a identidade como um processo e não como uma substância pode, sem dúvida alguma, exercer uma influência negativa sobre a cristologia da igreja. Por outro lado, ela nos conclama a uma posição de maior humildade em face da necessidade de uma compreensão mais profunda da identidade de Jesus. Não deveria surpreender-nos que as pessoas tenham dificuldades em aceitar a encarnação. Esse episódio evangélico se-nos afigura mesmo como uma escandalosa ruptura com a história, que nunca havia testemunhado um fenômeno dessas dimensões e com implicações tão incomensuráveis. Não é difícil aceitar uma versão mais fraca dessa teoria. É verdade mesmo que nos tornamos quem somos através das estórias que as pessoas contam a nosso respeito e as estórias que nós mesmos contamos a nosso respeito. Não seria algo surpreendente se Jesus tivesse se tornado humano através de sua interação com outros seres humanos, precisamente do modo como nós mesmos fazemos. Não seria tampouco surpreendente se Jesus tivesse se tornado mais e mais consciente acerca de seu papel como Messias à medida em que seu ministério transcorria em direção àquele momento fatídico quando entregaria sua vida pela raça humana. O que não podemos aceitar é que a ideia de sua divindade tenha surgido unicamente da necessidade que os discípulos tinham de construir uma identidade para o Messias que queriam contrapor às autoridades romanas ou a qualquer um que se-lhes opusesse. O homem Jesus é, de certa forma, o produto de sua encarnação e vida entre os homens, mas o Deus Jesus, não. Este transcende as esferas do tempo e do espaço e se estabelece como Criador e Redentor da humanidade: “porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas” Rom. 1:20.
Conclusão
            A busca pelo Jesus histórico tem sido sempre um empreendimento mais protestante do que católico. Os católicos sempre conseguiram conviver, sem grandes dificuldades, com níveis múltiplos de interpretação bíblica. Contudo, desde 1950 até os católicos estão sucumbindo à necessidade de uma busca pelo Jesus histórico. Poucos empreendimentos teológicos têm tido consequências mais negativas para a Cristandade do que as conclusões do movimento do Seminário de Jesus. O erudito bíblico Jacob Neusner que, mesmo sendo judeu, questiona a agenda do Seminário de Jesus em sua reconstrução do Jesus histórico, disse, recentemente: – ou o Seminário de Jesus é o maior embuste científico desde o homem de Piltdown ou ele significa a completa destruição dos estudos neo-testamentários; eu espero que seja o primeiro caso.
Texto publicado originalmente, com pequenas alterações, em: Ministério, Tatuí, SP, p. 24 - 26, 02 jan. 2007.